17 de novembro de 2009

Sem título

Sinto-me um mar, de águas violentas, fria e salgada. Nem doce como a água do copo que acalma, nem insípita, para matar a sede. Salgada, como a água que vem com a onda e entra na boca, toca os lábios, a língua (algumas gotas escorrem pela garganta). Incomoda e é cuspida. Nenhuma função, além de ser sentida com repugnância. Fria, um choque para o contato. Bate nos pés e, na volta, puxa com força para outras infinitas gotas de água e sal. Um mar, que ao olhar, causa vertigem, o chão movendo sobre o chão, numa tola perda de sentidos. Fria, retirando para si o calor dos pés, atacando o invasor de seu universo homogêneo. Nenhuma função, além de ser sentida.

12 de novembro de 2009

A história da formiga

Sentimentos
puros
(como aquele açúcar branco).
Saiu dali
(sem querer)
uma formiga pretinha,
maculando o açucareiro
ferindo a branquicidade
dos sentimentos
puros.
Os sentimentos continuam
puros.
Vamos jogar todo o açúcar fora?

Aprendi a ser assim
amando
alguém
que só mentia.
Eu justificava por amor.
Ele justificava por amor.
Mas
era tão sincero.
E, sincera
como a formiga
quero só o açúcar.
Vamos matar a formiga?

9 de novembro de 2009

Carmen em construção

Eis o problema, Augusto. Você não está comigo, você está com uma Carmen que existe apenas na sua cabeça. E todos os dias, você desenha mais um pedaço desta Carmen-desenho, que parece ser muito mais interessante que eu. Augusto, só tem espaço para você e a Carmen-desenho. Onde eu estou? Onde eu estou de verdade? Neste quarto não tem lugar para nós duas. Ou você apaga a Carmen-desenho. Ou não adianta fingir que eu sou quem você quer. Eu quero ser Carmen-verdade, aquela que você nunca viu.

20 de outubro de 2009

Sem vírgulas

Se eu bato a porta e saio correndo descalça pela rua sem ar e sem direção e um carro pára na minha cabeça ainda me sentiria melhor que agora presa na realidade paralela do meu apartamento com fumaça e yves montand sem expectativas para coisa alguma só a auto piedade não sei isso e não faço aquilo me alimentando dos restos que você deixa quando vem abrir as janelas para que eu possa respirar quando eu nem sei quem te disse que eu quero respirar.
Sexo poderia ser sujo se eu não soubesse escrever poesia (ou começo e fim)

A tua porra no meu corpo.
Sou uma puta suja.
Mas, uma puta tua.

13 de agosto de 2009

De outra pessoa: Ana Cristina César

Longe de distrair meu ânimo perturbado por interrogações, a leitura acabou-me conduzindo à compreensão do que a observação direta não fora capaz de fornecer. Na verdade estou ainda mais confundida por essa compreensão. Não sei se sou capaz de formulá-la. É forçoso admitir que o que aconteceu desconcerta. A leitura, longe de distrair meu ânimo perturbado por interrogações, acabou por restituir-me a capacidade de ver, por suprir-me as deficiências do olhar.

12 de agosto de 2009

Sobre o tempo

- Faz tanto tempo, né?
- O quê?
- Que a gente se conhece.
- Faz...
- Quatro?
- Cinco anos, oras! Mas, parece que foi sempre. Parece que eu te vi nascer e te peguei no colo.
- Que coisa sem graça.
- O quê?
- Isso de 'sempre' e 'te peguei no colo'. Cadê a paixão?
- Nunca teve.
- Ah.
(...)
- Desculpa, mas a gente é sublime. Não precisa de paixão.
- É...
- É!
- Você viu a bunda daquela guria do Big Brother? Que caída!
- O quê?
Querido Augusto,

Só o que restou de você nesta casa foi uma escova de dentes velha, um pijama amassado e algumas fotos digitais. Coloquei tudo em uma sacola, menos as fotos. Desculpa, mas elas estão presas na tela, tão longe e tão mentirosas, guardadas em pastas metodicamente organizadas. Fico aqui impotente vendo tudo e nem posso tocar seus lábios com dedos suaves e unhas vermelhas. Uma mísera seta e um duplo clique chegam mais perto deles do que eu. Porque são fotografias e nem dá para fazer um pôster gigante, para colocar no meu altar com santos milagrosos e mártires miseráveis. Não posso, culpa dos granulados sujos que nunca quis ver em você. Não gostava de imagens grandes, porque eu tinha tudo em tamanho real e de verdade. Bobinha.

Augusto, se essas imagens estivessem em papel, cortaria sua cabeça com uma tesoura de ponta – a mesma que enfiaria no seu rim se você estivesse aqui. Estaríamos quites. Mas, só me resta as malditas digitais. Colocarei na sacola: escova, pijama, disquete e também aquele livro com dedicatória mentirosa que você me deu. Pegue com o porteiro.

Não sei se sua, Carmen.

8 de agosto de 2009

Onomatopeia de um banho

treeec. tusc tusc tusc.
plim plim plim plim plim plim plim plim plim
la la la
wash wash wash la la la la toc toc toc toc la la la toc toc toc plim toc
plim plim plim plim
tusc tusc tusc treeec
plim.

Anna Geschwitz amava Lulu

Encontrava rostos como o dela todos os dias na rua em todas as mulheres e desejava conhecê-la, como uma necessidade estúpida de suprir um vazio em sua vida. Até tentou esquecer com homens quaisquer em noites tempestuosas, mas o movimento de vai-e-vem apenas a deprimia e a fazia chorar entre o cigarro e o 'foi bom pra você?'. Vivia de clichês e pensava que com ela seria diferente – ou seriam clichês bem ordenados como em um filme do Pedro. Continuava procurando e procurando uma maneira de acabar com tudo aquilo. Morrendo em sua banheira devagar, até que a água ensaguentada invadisse seus pulmões e não precisasse mais trepar para esquecer que nunca encontrou alguém como ela? Ó. Apenas aqueles rostos todos os dias na rua, em todas as mulheres. E nenhuma delas saberia onde tocá-la de verdade.

22 de junho de 2009

Livro de cabeceira

Eu, Maria Ninguém, sou um livro. Obra inacabada, difícil de digerir. Não é fácil ser livro, quando se é pessoa. Entre eu e todos os outros, há entrelinhas e milhares de inferências mal feitas (ou não feitas). Não pense em mim como uma puta descontrolada – o que pensaria de uma pessoa como eu. Mas, veja a minha poesia – sem rima, sem métrica, quase prosa. Porque quando deixei seu pau entrar em mim, deslizando suavemente, recebi você em minha vida, como uma linda metáfora do nada sobre o real.

13 de maio de 2009

Crime na favela

Extirparam um pedaço de Helena. E na reconstituição, houve rejeição.

10 de maio de 2009

Frívola

Estava no café há mais de meia hora. Sentada à mesa do canto, lia e se divertia com cigarros, da forma como pessoas elegantes o fazem. Tentava se concentrar, mas olhava para a porta quando qualquer um entrava. Não conseguia sair da página quarenta e cinco. Ele estava atrasado, ela estava esperando. Então, entrou, procurou seus olhos grandes e castanhos e sentou-se:
– Estou atrasado.
Ela terminou de ler e colocou um palito de mexer café para marcar a página. Fechou o livro, com aquele ar de desinteresse.
– Tudo bem.
Deu uma última tragada da mesma forma elegante, levantou o rosto e lançou a fumaça para cima. Ficou observando ao se dissipar no ar.
– Estava comprando agrião. Amo agrião, uma longa fila. Me atrasei.
– Tudo bem.
Apagou o cigarro devagar, batendo várias vezes no cinzeiro cheio. Sempre permanecia uma pequena ponta laranja acessa. Não era boa nisso de apagar cigarros, nem de pisar neles enquanto andava. Tentou vários métodos para medir a distância em que o jogava, a velocidade do ar e qual o tamanho do passo. Errava, sempre.
– Estava lendo, enquanto te esperava.
– O que fez de bom hoje?
– Li a página quarenta e cinco.
– Mais alguma coisa?
– Pintei as unhas de vermelho, é outro tom - esticando as mãos.
– Frívola.
– Compulsiva.
– Frívola.
– Lascívia.
– O quê?
– Lascívia é uma palavra tão bonita quanto frívola.
Crente, aquele que crê

Joana, 39 anos. No Terminal Guadalupe, entrou no ônibus no horário de sempre. Procurou um banco vazio e encontrou um assento no fundo, ao lado da janela. Por mais que os terrenos baldios e as luzes a desconcentrassem, resolveu sentar. Fechou os olhos, fez o sinal da cruz e começou a orar. Na glória do Senhor, pequenas rugas formavam-se entre os olhos e a boca fazia movimentos rápidos deixando escapar palavras abençoadas pelo Pai.

Agradeceu a Deus por mais um dia vencido em nome de Jesus. Agradeceu pela saúde, pelo trabalho e pela benção da vida. Pediu a Ele que a acompanhasse e não a deixasse cair em tentações terranas, para que pudessem estar juntos na eternidade celestial. Aleluia, Senhor. Encontrou Jesus e pela glória e poder Dele, conseguiria manter o amor e honra. Fez novamente o sinal da cruz e entoou em silêncio louvores e adorações.

O ônibus parou no ponto da Avenida Paraná e algumas pessoas desembarcaram. Joana abriu os olhos, fechou novamente e fez um último pedido. "Senhor, pela sua graça e bondade, convida este homem para entrar na sua vida e faz com que ele me pegue de jeito".

Fez o sinal da cruz, levantou e se sentou perto do motorista.
- Oi, Osmar – sorrindo maliciosamente.
Repressão

Eu. Eu ainda espero pelo tempo em que não precisarei mais disso. Quanto desejo vou ter que reprimir para parecer decente? Quanta vontade será imediatamente rejeitada por um mundo mais justo? Eu confesso, meu bem. Sou criminosa. Desejei e deixei ser desejada. Senti os arrepios e meu sangue fluía para uma parte do meu corpo – aquela parte que tantos querem. Mas, eu sou decente, eu sou justa, eu durmo o sono dos inocentes, enquanto o mundo lá fora caminha em direção ao real.
Auto rascunho

Carmen retirou um cigarro do maço, posicionou o cinzeiro no melhor ângulo e acendeu. Levantou a mão na altura do rosto, balançando, e pensou 'estou confusa'.

Essa sempre foi minha pose de doida descolada preferida. Seja com platéia em bar cheio ou no conforto do lar doce lar. Admito que prefiro a primeira opção, para não disperdiçar a sensualidade do ato. E acredito que sensualidade só existe quando há um mais um. Ou uns. Ou vários. Assim como ser bem resolvida – só sou bem resolvida quando há um mais um. Ou uns. Ou vários. Nesses dias nublados, sozinha – apenas eu e a merda da minha consciência boxeadora –, corro perigo. Sorteio números de telefone para convites tentadores. Todos recusados. Poderiam até render uma boa trepada, mas, estamos no inverno e as pessoas sentem frio ao tirar a roupa. Prefiro acreditar nisso para não pensar em rejeição. Se escolho a última opção, sozinha, mal resolvida, perco o escasso auto-controle. Aí, perco também a graça e viro dramalhão mexicano. Ok, paro de enrolar: ficar sozinha me deprime.

Nem falo da solidão em si. Aproveito bem os momentos em que posso escolher o sabor da pizza sem perguntar 'amor, tem certeza que não quer calabresa que eu odeio?'. Adoro utilizar todo o espaço da cama e fumar sem me preocupar se a fumaça incomoda o vizinho. Mas, ficar sozinha exige monólogos permanentes e sinceros. Monólogos nunca são comédias, sinceridade sempre dói. A minha calça fica mais apertada, meu cabelo amassado. e não paro por aí: eu viro má, mentirosa, cretina e cruel. Penso e repenso e analiso toda a minha vida. Ela já não á grande exemplo de o que eu quero ser quando crescer. Nessas horas, vira a merda suja em que vivemos. É, mastigo e saboreio todas as minhas frustrações. E as alheias – claro, eu tenho culpa por todas, do desmatamento da floresta amazônica e efeito estufa ao dinheiro que minha mãe perdeu no caminho do banco para casa. Todas as coisas no mundo são minha culpa. Eu se não são, eu poderia ajudar a piorá-las nesse exato momento. E não suporto remoer tanto sofrimento junto, tantas pessoas morrendo e matando por minha causa. Eu, eu, eu. Só o que penso agora, eu. Eu aqui, eu ali, um mundo de leticias, como se eu, Malkovich, entrasse no recipiente do sétimo e meio. Acabo amanhã.
Ameaça nonsense

Um casal. Não. Antes, um homem e uma mulher. Sentados à mesa da cozinha, depois de uma noite de mentiras gentis e gemidos abafados. Ela resolve jogar o cinzeiro com força na direção daquele corpo sem graça. Fuma e bate a cinza no chão – tudo normal –, e diz:
– A culpa é sua.
– Eu nunca disse que te amava.
– E nunca disse que não.
– Eu nunca disse que te amava.
– Mas, você abriu a lata de conservas pra mim.
– Estava sendo gentil.
– Eu não preciso de gentilezas.
– Você é feminista?
– Não, eu sou ariana com ascendente em libra.
– Não gosto de horóscopo.
– Eu gosto de todos os tipos de ilusão.
– Então podemos continuar nos vendo?
– Não, você não entende as minhas piadas.
– Elas não fazem sentido.
– Para o homem com quem eu gostaria de trepar fazem.
– E quem é ele?
– Qualquer um. Podia até ser você, se fosse mais sensível e menos gentil.
– Você é louca.
– Você deveria ter medo de mim, babe.
– Você lembra mesmo a Glenn Close.
– Eu também fervo coelhos. E carne humana.
– E qual pedaço de mim você ia ferver?
– O tornozelo direito.
– Por que o direito?
– Acabei de escolher. Mas, poderia apenas morder de tirar sangue. Nesse caso, o esquerdo.
– Por que o esquerdo?
– A culpa é sua. Porque você é assim. Vou anotar meu telefone, pode ligar se precisar...
– De sexo?
– De bom gosto e bom senso.
– Você é louca.
– Você deveria ter medo de mim, babe.
Sobre as pombas novamente

Ao meu lado, ela parecia uma pombinha. Branca, fugindo dos assuntos e comendo as migalhas.
Pequeno diálogo sobre a ineficiência

- Está quente! Me empresta esse ventilador?
- Não, tira a roupa.
- Eu estou sem roupas.
- Ah. Desculpa, não percebi.
Não é nada demais

Não é nada demais. Apenas mais uma sexta-feira no bar. Eu aqui, você aí. Nada demais. Acendo um cigarro que está pela metade no cinzeiro e nem é meu. Mas, você sempre disse que eu era elegante, mesmo de camiseta de dormir. Eu acredito. Continuo elegante com esse cigarro usado. Não tem marca de batom, nem está amassado. Acendo, porque deixaram para mim. Para as minhas mãos pequenas e elegantes.

(Só gosto da minha própria fumaça, as outras me ardem os olhos, Inês.)

Aperto as pálpebras com força, enquanto trago e sinto dor. Eu aqui, você ali tira o caderninho do bolso e anota uma frase com a sua síndrome-tarantino. Mas, dessa vez, a idéia perfeita não veio das minhas noites de insônia. Deve ser de alguma loira magricela dessa sua mesa tão animada.
Café solúvel e jazz

No meio da noite, talvez duas, talvez três, acordo com o som do saxofone que vem de alguma janela vizinha. Um jazz meio nosso, meio solidão. Hipnose e aroma. Cheiro de café solúvel derretendo em água fervente. E eu sigo com olhos, ouvidos, nariz e boca seca pedindo cigarro. Pra te ouvir. Aquele jazz pra minha insônia.

Busco luzes acessas, sombras nas janelas, vidas vivas. Nada. Só eu e você, que nem é luz nem sombra. Só solidão sonora. Eu e a música personificada presas em uma câmara acústica. Assim, sua dor se dissipando no ar de outono. Ar em movimento e estrelas invisíveis em um teto pintado com tinta acrílica branca.

Bom que me prendo em você e esqueço do eu cortante. Eu afiado como lâmina nova. Eu olvidável derrubado com um dó supersônico. Ré, mi,fá, sol, lá, si. Dó. Não sei se sinto mais de mim ou de você.
Hiperlativa

Marion. Sempre em sua cama. Sempre deitada sensualmente. Sempre com sua blusa de botões. Sempre com suas unhas vermelhas. Sempre com seus cabelos para o lado esquerdo. Sempre com seus cigarros blasés. Sempre ouvindo mulheres histéricas. Sempre com seu sorriso de boca fechada. Marion, Marion, Marion.

Seu apartamento parece sair de um filme da década de vinte. Seus vinis tocam tango e franceses melancólicos. Seu perfume faz John entrar. Então, ele entra, diz que a ama e a come. Ou a come e diz que ama. Depois, vai embora com ar de desilusão, carregando toda a intolerância da pequena Marion para assuntos afetivos. Ela queria abrir o coração, mas, só conseguia abrir as pernas. Charles vem porque ela implora. Não suporta a rejeição e entre copos de vinho barato o deseja como posse. Não suporta também a monotonia do dia e a insônia das madrugadas. Insuportável é o mundo, como comer, ver filmes em preto e branco, ler Fante, limpar o banheiro, beber vodca ou chorar suas dores. Mas, não suporta a rejeição. León não vem, porque quer ignorá-la. Mas, suas palavras sobre a música preferida soam como poesia. Marion não gosta de poesias, nem de clichês. Thomas aparece, às vezes, para encontrar o prazer que Marion proporciona. Ela leu poucas coisas de Bourdieu e sequer compreende a linguística velha de Saussure, mas sabe trepar e fumar como ninguém. Uma obra de arte, como diria Richard, quando vem em busca de inspiração para um novo conto. Ele quer escrever um livro, mas, ela nunca foi interessante o suficiente. Só contém caras e bocas e fumaça, muitas neuroses e alguns sentimentos.
Derramando sua mediocridade, enquanto todos eles tocam sua pele branca e sussuram falsas palavras de amor, por piedade.
Brigitte Bardot

Eram os primeiros dias de inverno, aqueles que costumam ser mais frios. Estava esperando há uns cinco minutos e, como sempre, detestando sua pontualidade britânica. Ele chegou no horário e trouxe os discos que ela tinha emprestado. Todos eles e uma jaqueta jeans que há meses dividiam.
– Já começou?
– Ainda não.
– Vamos entrar?
– Vamos embora?
– Quê?
– Eu quero ir embora...
Não queria ir embora. Mas, não podia fazer de conta que estava tudo bem e não ia deixar acabar sem que tivesse tentado, ao menos, fugir. A culpa era do cinema, ela sabia. A culpa era dela. De quem era a culpa? Das calcinhas que ele não gostava? Das noites alcoólicas em que ela dizia com quantos homens já tinha dormido? Dos filmes que assistiram e ele não gostou? A culpa era dela, sempre foi. Olhou para o chão:
– Por que a gente não vai embora? Você ri e diz que se diverte com essa minha indecisão? A gente volta pra casa e você me joga na cama e me beija e amanhã acorda e fica tudo bem e diz que me ama.
Ela o beija. Ele beija seu rosto e diz:
– Eu te amo.
Entram no cinema porque o filme está começando.
Blood bitch

Trepamos, estupidamente. Éramos duas pessoas sem sentimentos, ouvindo meus sussurros e suas ordens, num escuro de sombras e movimentos. Seu nome, minha sensatez, esqueço dessas coisas irrelevantes e faço tudo que minhas calcinhas brancas de algodão dizem que não aceito.

Depois, ele respira fundo e fecha os olhos. Eu choro entre ecos e palpitações. Levanta, pega um cigarro, acende e fica olhando para a fumaça que mal aparece na escuridão. Fecha os olhos novamente como se trepasse com a merda do lucky strike. Pede se eu quero um e vai até o banheiro, antes que eu responda.

Não consigo me mexer, não consigo dizer que não quero, não consigo vestir minha calcinha branca de algodão, não consigo secar minhas lágrimas inoportunas.

Volta e acende mais um. Não fala nada, passa a mão no meu rosto úmido e põe o cigarro entre meus dedos. Vira-se, coloca Maysa Matarazzo pra tocar. Não reajo, nem choro mais. Ele passa a mãos nas minhas coxas e me abraça. Não falo, não fumo. Ele fala que me ama pra caralho.

Ne me quite pas, ne me quite pas, ne me quite pas.
Plágio

A campainha barulhenta tocou. Odiava quando a campainha barulhenta tocava. Aliás, devia estar velha mesmo: odiava qualquer coisa que não fosse boa música ou bom filme, ultimamente. A campainha barulhenta tocou de novo. Vestiu uma camiseta e foi atender.
– Oi.
– Oi.
– Oi.
– Eu estava com saudades.
– Eu stava dormindo. Entra e fecha e porta.
Beija. Com sono, com pressa, sem vontade. Ele ainda fala:
– Passei pela loja ontem e vi um disco do My Bloody Valentine. Lembrei de você, mas, tava caro. Um dia eu compro para nós.
– Cadê a merda dos meus cigarros?
– Aqui.
Acende, coloca uma música para tocar.
– Hey, você comprou o disco dos Smiths?
– Comprei. Surtos consumistas. Odeio consumismo.
– Me beija.
– Eu estou fumando agora. Espera.
– Eu não ligo.
– Eu não quero.
Algum tempo e o silêncio. Ele não consegue suportar:
– Terminou o livro?
Cinzeiro em uma mão, começou a arrumar as coisas no lugar.
– Não, dormi. Acho que vou ao médico, semana que vem.
– Está sentindo alguma coisa?
– Sono. Odeio sentir sono.
– Todo mundo sente sono, não precisa ir ao médico. Está sentindo mais alguma coisa?
– Não. Vou ao médico, odeio sentir sono.
– Devem ser esses seus remédios...
– Eu não vivo sem eles. Quero outro para não sentir sono. Tem remédio pra tudo hoje em dia.
– Tem Buscopan.
– Assistiu ao filme ontem?
– Sim.
– Ok. Não conheço mais ninguém que nunca tenha visto Fellini.
– Não exagera.
Colocou vodka pela metade num copo de estrelinhas. Terminou o cigarro.
– Quer?
– Quero. Eu gosto de você.
– Eu sou insuportável.
– É. Mas, eu gosto de você.
Sentou no mesmo sofá que ele estava sentado.
– Eu sou insuportável e tenho sono.
– Cala a boca.
Ele a beijou. Ele sorriu. Ficaram abraçados por alguns instantes. Tonta, levantou para fazer café.
– Quer café?
– Não. Eu queria você.
– Clichês agora?
– Pra te fazer sorrir.
– Odeio clichês.
Ela levantou e foi até a cozinha. Estava incomodada, olhava para a água fervendo no micro-ondas. Café solúvel, leite desnatado, adoçante. Voltam para o mesmo sofá. Ele a beija. Ela o beija. Daqueles beijos devagar, mordendo os lábios, com os olhos abertos para poder olhar. Deitam-se no chão. Ele tenta beijá-la. Ela olha para o teto.
– Não vivo mais sem microondas.
Ele continua beijando.
– Eu tive um sonho engraçado essa noite.
Ele continua beijando.
– Para.
– Desculpa.
– Eu tive um sonho engraçado essa noite.
– Você não dormiu a noite.
– Modo de falar.
– Você estava com alguém ontem?
– E se estivesse?
Ele sorri:
– Eu não iria embora.
– Eu não faria isso.
Mentira. Tinha problemas com relacionamentos: não conseguia ficar com ninguém porque alguém melhor podia aparecer.
– Com o que você sonhou?
– Coisas estúpidas.
– Não vai contar?
– Não.
– Por que começou então?
– Não comecei. Odeio contar sonhos. Preciso dormir.
– Posso dormir com você?
-– Não sei.
Mais tempo e mais silêncio.
– Ok, fica. Mas, eu preciso dormir.
Deitam, ele a abraça. Ela sorri e fala:
– Ok. Eu gosto de você.
Ele sorri.
Advérbio de intensidade terminado em mente

Devia ser umas onze horas. Ligou o chuveiro e tirou a roupa bem devagar para que a água tivesse tempo de esquentar. Entrou de uma só vez viu a tinta preta dos seus cabelos escorrendo pelo corpo. O mundo é mesmo uma merda. Ela não queria tomar banho, só ficar ali. Sentou no chão e a água começou a bater absurdamente quente nos seus joelhos, deixando-os vermelhos. Masoquista. Como as músicas que ouvia para ficar mais triste. Como roer as unhas até sair sangue. Unhas. Gostava delas carmim como estavam porque parecia mais puta, logo mais despudorada e confiante e moderna e confiante e feliz. As putas deviam ser felizes. Desespero. Procurou algum resquício de ilusão. Gostava de se iludir, de sentir-se falsamente protegida por alguém que pouco se importava com a sua existência. Existência. Se tivesse uma banheira, cortaria os pulsos e morreria afogada na água vermelha, como naquele filme. Começou a rir sem controle, porque na película a menina suicidava-se ao som de alguma coisa da Mariah Carey. Ou seria Whitney Huston? Estúpido, not for her. Ela queria morrer com estilo. Edith Piaf, talvez. Então pensou nas manchetes dos jornais baratos: jovem desiludida corta os pulsos em uma banheira ouvindo Piaf. Precisava de um papel para escrever um bilhete para alguém. E não podia ser um bilhete qualquer, mas sim, um como aquele do Almodóvar. Espero que nunca me entenda, porque se compreenderes estarás tão desesperado quanto eu. Alguma coisa assim, não lembrava direito. E tinha aquela cena com vinil, Ne me quitte pas e uma frase qualquer bonita. Seus joelhos estavam ardendo. Desligou o chuveiro e saiu. Não tinha uma banheira.
Desgaste do óbvio

Eu quero falar sobre o clima. Na manhã do começo da tarde, aquela sensação seca de verão mal resolvido, o sol arde, forte e vai embora. O vento úmido da chuva de verão que não caiu. E de novo, o sol forte arde. Não é inverno, nem outono e eu não choro pela dor da terceira perna que lispector trazia consigo. E eu comigo. Me, mim, comigo. O ego e os contos que eu nunca soube fazer. E aqueles que nunca recebi com meu nome, escrito em folha arrancada de caderno deixada em cima da mesa para quando acordar. Te, ti, contigo. Doce, como cerejas industrializadas. Mas, era a música que me fazia ouvir. A música boba que saía das palavras, as ditas e as não ditas. E todos os assuntos que faltam, a discrepância do que eu quero com o que eu tenho. Não há arte e nem poesia. Não gosto de poesia, não há. O lirismo indecente, não há. Tudo o que critico fica naquele espaço de vácuo entre os dois pares de olhos que esbarram na futilidade daquilo que nem me serve. Desgatada como a pedra e o musgo que ficam sob a água do bucolismo que não vivi para citar. Não me serve, não me serve como a o sol que arde e a chuva que não cai. Não me serve como a literatura ruim e a arte que não me serve. Nada me serve. Seria simples ser simples, como aqueles que são. Mas, não sou, não sou nada do que espera, além de partes de corpo para apertar. Tem e não reclamo, a condição para a convivência com o desgaste é que sobre alguma coisa em que se segurar. O abismo e a raiz suja em que me seguro para não cair no que vivia. Cair leva ao fundo e as águas, talvez, mais azuis e mais profundas. Talvez, a estrada de pedras pontiagudas, com o meu coração estilhaçado e uma ponta saltando do meu corpo vermelho que dói. Nao dói, só acaba. Em devaneios tolos, esqueci do tempo.
Roteiro de segunda classe

A porta fechou e o carro saiu, com dinheiro da distância percorrida. Dois quilômetros e quatrocentos metros. Talvez, mais longe ou mais perto. Pisquei por exatos três segundos eternos e olhei para cima. Ainda estava escuro, mas, amanhecia. Sempre existia uma manhã, com olhos borrados e dor confusa, que eu não sabia ser de cabeça ou consciência. Abri a bolsa e procurei os cigarros, as chaves caíram, as moedas caíram, os papéis caíram e fizeram barulho no silêncio dos passos. Pisquei por mais três segundos, como todas as vezes, abaixei devagar e sentei no paralelepípedo. Tirei a carteira amassada, peguei um cigarro, isqueiro e tentei acender. Tentei mais algumas vezes, até sugar a fumaça com força, levantar o rosto e a lançar para o alto, controlando a quantidade. Começo a rir baixinho, sussurando La Vie en Rose, com desafinação embriagada. Mais fumaça, mais malabarismo, mais vento, mais sol-cor-de-laranja, que ainda nem aparecia. Joguei o cigarro no chão e pisei diversas vezes, apagando e esmagando os olhos verdes, que estavam jogados no chão. Juntei todas as coisas e levantei. Andando devagar, passei pelo corredor, exibindo a minha elegância ébria. A música ainda fazia tchanranranran na minha cabeça, os passos atingiam a parte mais sensível da minha alma. As chaves. Derrubei e tentei abrir a porta. Ela girava, enquanto eu pensava em uma letra que acabava de escrever em nota mental. Um clichê sobre amor e dor. A porta abriu, a porta fechou. Sentei no chão, tirei os sapatos e comecei a chorar.
Conto absurdo da dor

Virou de lado e abriu os olhos devagar, doendo. Luz, travesseiro de motivos rosa e azul, relógio. Tocava Funny Bird na sua cabeça. E uma voz estúpida que dizia “it's just sex”, repetidamente. Afundou-se nas cobertas, sem pés e meias para esquentar. Funny Bird estourava com seus miolos, jogados na parede branca. Sangue e pratos quebrados. Todos os livros caíram da prateleira. As convicções começaram a evaporar, juntando-se a fumaça do cigarro acesso. Chorou tentando recuperar lembranças no meio de seus rins. A música não parava de tocar e a voz agora tinha olhos azuis de Bukowski, sem álcool ou boas histórias. Todas as coisas que sabia estavam correndo no seu quarto e elas riam da sua vulnerabilidade. Ela tentava se esconder e chorar e chorou setenta por cento do seu corpo frio, sem pés e meias pra esquentar. E só chorava assim depois de trepar. Levantou e tentou caminhar, mas, perdeu os sentidos das suas pernas, caindo e ouvindo a voz com olhos azuis e inocência imbecil. O sangue na parede, a água em lágrimas e as coisas e as lembranças. Deitada no chão vomitou sua dignidade e começou a rir desesperadamente. Ria das suas unhas mal pintadas, das suas palavras e piadas de humor negro. Risos histéricos e choro compulsivo e dados jogados pra ver se da próxima vez podia enfiar em outro lugar. And of all the happy ends, la la la.
Blamed

Culpa das luzes e das palavras ensaiadas que ele falou naquele dia, mostrando que ela havia sido patética. Culpa de todas as coisas de sempre, até mesmo das músicas que ela costumava ouvir. Vodca e desespero. Duas doses grandes e rápidas e um sofá vermelho. Os meus cigarros. E os seus cigarros.

Precisava fazer alguma coisa para o ferir profundamente por todas as palavras ensaiadas e clichês mtv que usou. Resolveu roubar um cigarro. E depois outro e outro e outro.

Olhava para o nada e suas unhas vermelhas e assassinava aos poucos todas as suas dores, com aquela fumaça no escuro. Estava bêbada demais, mas aceitava aquilo como um analgésico pra sua pobre alma atormentada. Rainha do drama ela. Mesmo.

Assim, chorou imensamente pela sua vidinha de merda, lançou todas as coisas na parede, pensou em se ferir com uma tesoura, não queria furar sua blusa. Nada daquilo que costumava sentir. Devia ser alguma droga diferente de seus remédios para dormir. Remédios para dormir. Quarenta e cinco deles para nunca mais abrir os olhos. Queria morrer. Could you kill me more?
Cigarette in your bed

Estavam deitados cada um para um lado da cama, ele com a cabeça para os pés delas, assim, com cobertas grandes e separadas como ela gostava de dormir e exibir sua individualidade. Olhavam para o teto, para si e para a janela e a chuva atrás da cortina. Ainda bem que chovia e que poderiam ficar ali para sempre se não fosse o desejo por café e cigarros. Manhã. Ele virou para o lado dela e fumaram devagar o único cigarro da casa. Silêncio, desses que não incomoda. Tempo.

Acabou o cigarro e ela colocou Dresden Dolls pra tocar. Ele sussurou alguma coisa em inglês e começaram a fazer piadinhas nonsense sobre a noite anterior, coisas que poderiam virar filosofia barata para um dia inteiro. Ele continuava falando com toda sua inteligência para assuntos inúteis e ela se perdeu na perfeição. Perfeição dele.

Ela pensava que ele era um dos homens mais inteligentes que ela já havia conhecido e admirava seus comentários com citações de pessoas que considerava importantes, de McLuhan a Bob Smith.

Então discutiram Brecht. Ele levantou, pegou o isqueiro, largou o isqueiro, perguntou se tinha café, bebeu água, abriu um livro. Cantou um pedaço da música que tocava e voltou a olhar para a janela. Ela sorria e respondia monossilábica. Silêncio, daqueles que não se percebe.

Porque sabia que eram perfeitos um para o outro. Porque sabia que não havia nenhum sentimento. Não era só um lapso apaixonado do qual ambos estariam arrependidos no mês seguinte. Nem o álcool da noite anterior. Era diversão. Eram perfeitos em suas imperfeições absurdas. E eram melhores juntos. E ele soava sempre perfeito. Para ela. Juntos.

Um seriado antigo em preto e branco. Humor e classe pra começar.

E não se importavam com nada e ninguém.
Vácuo

Vestiu-se. Queria parecer bonita, mas não sabia exatamente porque. Saiu depressa e pegou o elevador. Olhou-se no espelho e como sempre se lembrou de todos os seus defeitos, inclusive aqueles que só ela via. Entrou no ônibus.

Mesmo que tivesse nascido na cidade mais fria do país, nunca aceitou bem o fato de não ser européia. Adorava o frio e todas as coisas que ele propiciava, achava que as pessoas ficavam mais bonitas com cachecóis e casacos longos. Além disso, podia se esconder entre roupas e graus negativos.

Irritava-se porque os últimos dias do inverno estavam quentes. Não podia nem aproveitar aquele finalzinho de estação. Uma janela calculadamente aberta no ônibus fazia com que o vento do início de noite trouxesse uma sensação de que tudo o que ela não quisesse podia ir embora. Assim, andou por uns vinte minutos. Se pudesse ficaria ali para sempre.

Para sempre. Exagerada e megalomaníaca. Gostava de falar em milhões e eternidades, mesmo sabendo que tudo o que sentia durava alguns dias. Depois passava.

Não estava arrependida, apenas sentia raiva. E não sabia do que. Talvez, dela própria. Mas, era difícil admitir. Assim preferiu acreditar que era brilhante, enquanto ele era qualquer coisa que ela não gostava.

Foi fria. Podia ser uma defesa involuntária. Ou era assim mesmo. Gélida e com um olhar de superioridade que a fazia mais forte. Não abraçava, não ria das piadas, criticava e, assim, ficava insuportável e distante. Distância. Era o que queria. De todas as lembranças que traziam consigo problemas ou decepções.

As coisas não precisam ser ruins para não serem boas.
Pretty as can be

Sessenta e sete passos. Contou os passos que andou a mais, apenas para sentar num banco vazio. Esforço. Não suportava mais a presença de estranhos, estivessem eles lendo jornais ou assoviando alguma canção que ela não gosta ou conhece. São estranhos, que poderiam se compadecer com sua cara de 'solidão européia' e falar sobre como fazia frio ultimamente ou sobre pombas e pipocas. Odeia pombas. Seu sonho é ser atacada por uma pomba enfurecida. Começa a rir e fica ensaiando frases de explicação. Esse roxo aqui no olho? Uma pomba bateu em mim outro dia na rua. Nada consegue ser mais engraçado, talvez, até passasse a alimentar os bichinhos. Mas não queria falar sobre eles. Nem falar, nem sorrir, nem demonstrar interesse. Não tinha interesse nem na sua vida, muito menos em assuntos aleatórios com estranhos. Quantas calorias se perde em sessenta e sete passos? Queria comer alguma coisa que tivesse mais de cem calorias e não fosse líquida. Mas, foram sessenta e sete passos. Calorias e estranhos, ambos eliminados. Um sol bobinho e um vento gelado, casaco-oasis e um cachecol preto. Olhou para suas unhas roídas e rosas e teve vontade de fumar. Fumar causa impotência, fuck it. Estava fumando demais e estava falando coisas em inglês demais. Soava arrogante, mais do que já parecia. Parecia arrogante, inteligente, descolada, depressiva, maluca, solitária, comunicadora, neurótica, confusa, mórbida. Parecia tantas coisas, mas queria se anular. Ao mesmo tempo que queria ser todas as coisas que não é e ter todas as coisas que não tem.

Banco, pombas, sol bobinho, vento gelado, casaco-oasis, cachecol preto, unhas roídas e rosas, cigarro, impotência, fumaça, fones de ouvido, mrs gibbons, sand river. Anula-se.
Hipocondria

A vida começou normal. Até os quinze anos. Lembra de estar lendo alguma coisa da Virgina Woolf quando percebeu que era a pior pessoa do mundo. Manteve o olhar de superioridade e o sorriso cínico, mas era tudo uma grande mentira, só para não parecer mais tola do que já era.

O mundo foi tornando-se hipocondríaco. As cólicas trouxeram o luftal, a sinusite o paracetamol, as dores de cabeça o buscopan, as ressacas o plasil, a dor de garganta a amoxicilna. Mesmo assim, alguma coisa ainda doía.

Odiava não viver, mas quando alguma coisa acontecia, ela se arrependia por toda a sua vida. Era difícil: ler, emagrecer, sentir-se burra, assistir televisão, caminhar pela cidade, estar sozinha, ter alguém, ter que esquecer, ter que lembrar, comprar, vestir, beber vinho. Preferiu viver drogada. Quando se deu conta já precisava de remédios para dormir e para acordar, para cumprimentar o porteiro ou ir até a padaria.

Acordava e procurava suas 25mg de prozac, uma hora antes das refeições 10mg de sibutramina, se tivesse muito trabalho ou uma reunião no colégio dos filhos, mais 50mg de olcadil. À noite, vodka seguida de 40mg de lexotan para poder dormir.

Dopada, parou de pensar. Foi apenas alguma coisa que respondia automaticamente aos estímulos externos. Formou-se no curso da moda, fez novos amigos, morou em Oxford, saiu com alguns caras, esqueceu os amigos, virou superexecutiva, casou com um homem desprezível, continuou saindo com alguns caras, teve dois filhos que não conseguia manipular. Fez tudo e era como se nada tivesse acontecido, porque ela nunca pensava. Mas, era melhor assim, ela também nunca doía.
Dear catastrophe waitress

Quando tinha treze anos e ouvia Depeche Mode, ficava imaginando aquelas noites em que beberia e fumaria num pub decadente. Agora, era tudo tédio e repetição. Às sete, vestia uma camiseta de alguma banda dos anos oitenta, casaco, cachecol, amarrava os cadarços e saía em direção ao Honey Pie, onde servia bebida para caras não tão interessantes/ interessados como imaginava.

Um grupo de amigos contava histórias estúpidas, um casal parecia brigar, algumas pessoas sozinhas pensavam, lembravam, esqueciam e uma banda tocava covers do Clash. Ela só ali observando e fumando desesperadamente entre 'what do you wanna drink' e 'something more?'.
Fim da noite, as portas eram fechadas, as cadeiras postas em cima das mesas, os instrumentos guardados. Um dos músicos olhava para ela, enquanto prendia os cabelos e vestia o casaco. Reciprocidade, telefone, see ya so. Caminho de casa.

Virou a chave e olhou para a bagunça: nada estava no seu lugar. Pegou uma garrafa de vodka, uma nova carteira de cigarro e um filme do Goddard que passava na televisão. Deitou na cama e começou a assistir. Em breve, seria inverno, decidiu esquiar no Mont Blanc. Vada gole, mais bêbada, logo mais tonta e mais feliz e mais fumante. Tinha um vazamento no banheiro, teria que gastar algumas libras do salário que ganhava na merda do bar. Ok, pelo menos, conhecia músicos que pensavam ser 'the clash'. Começou a pensar em quando ele telefonasse, sairiam para ver um filme. Ele também gosta de cinema espanhol. Quando casarmos poderemos passar o verão em Barcelona. Ah! Velha demais para acreditar que ele queria algo mais que comê-la. Começou a chover. Vazamento, o barulho ficava cada vez mais longe. Usaria calcinha preta. Alguma coisa que ela não queria ver na televisão. Merda, e o final do filme? Será que ele havia comido a mocinha no fim? Esqueceu que era Goddard. Seria bom se ele ligasse logo. Antes que acabasse a vodka e a cabeça começasse a doer. Era uma merda trepar com dor de cabeça. Tinha medo de ser frígida. Ele devia ligar logo. Estava bêbada demais.